Pollyane Lima e Silva e Cecília Ritto, do Rio de Janeiro
Cosmo Corrêa e Carla Lage, com os filhos Enzo e Sofia, são retrato da nova família destacada pelo Censo 2010
(Album de família)
Censo 2010 detalha a
situação dos casais formados por pessoas divorciadas e dos lares em que
os filhos são de apenas um dos cônjuges. Mudança na legislação facilitou
separações e ajudou a ampliar o conceito de família
“A configuração dos relacionamentos faz com que se amplie o conceito de
família. Em tese, as crianças passam a ter mais gente cuidando delas”,
diz a psicóloga Lulli Milman
Um novo recorte do Censo 2010, divulgado nesta quarta-feira pelo IBGE,
mostra um retrato detalhado da família brasileira. O estudo confirma
características observadas nos últimos anos, reflexo da mudança
estrutural dos grupos familiares, da maior participação da mulher no
mercado de trabalho, das baixas taxas de fecundidade e do envelhecimento
da população. E detalha aspectos ainda não mensurados no país, como a
maior disposição dos brasileiros para dar início a um novo
relacionamento conjugal depois de uma (ou mais) experiências de vida a
dois – resultado também da mudança na legislação no mesmo ano do estudo,
o que tornou o divórcio algo possível com uma simples passagem pelo
cartório.
A novidade que emerge do estudo vem da preocupação do IBGE de, pela
primeira vez, analisar as famílias reconstituídas. Ou seja, “os núcleos
constituídos depois da separação ou morte de um dos cônjuges”. Esses
grupos representam 16,3% do total de casais que vivem com filhos, sendo
eles de apenas um dos companheiros ou de ambos. São mais de 4,4 milhões
as famílias com essas características atualmente – o restante, quase
84%, é formado por casais com filhos do marido e da mulher vivendo
juntos no momento da entrevista.
A composição de casais com filhos ainda representa a maioria das
famílias brasileiras, apesar da queda significativa nessa fatia da
população: foi registrada redução de 63,6%, em 2000, para 54,9% em 2010.
O Censo também mostra que, apesar de os solteiros ainda responderem por
mais de metade da população, 55,3%, entre as pessoas com 10 anos de
idade ou mais, foi entre os divorciados o maior aumento observado de uma
década para outra: o índice quase dobrou do levantamento feito em 2000
para o atual, passando de 1,7% para 3,1%. Se somados com o número de
desquitados e separados judicialmente, esse grupo chega a quase 5% dos
brasileiros.
Felicidade - A mudança que
se mostra acentuada na década entre 2000 e 2010 vem sendo construída ao
longo da segunda metade do século XX, e está diretamente ligada ao
conceito que se tem de felicidade. Fundadora do atendimento infantil no
serviço de psicologia aplicada da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (Uerj), a psicóloga Lulli Milman vê, no crescimento dos
divórcios e na consequente elevação das famílias recompostas um sinal de
que o matrimônio e a vida conjugal passaram a atender mais a objetivos
pessoais que a formalidades.
“Ser feliz é algo relativamente novo. Antes, vivia-se para viver, para
honrar o rei, a família. A mudança radical sobre isso, na história, veio
com a Revolução Francesa. Nos anos 50, o casamento eterno era o ideal
de felicidade. Hoje, ser feliz está ligado a satisfazer a si próprio”,
diz Lulli. “A configuração dos relacionamentos faz com que se amplie o
conceito de família. Em tese, as crianças passam a ter mais gente
cuidando delas”, afirma Lulli.
Quando observados apenas os estados conjugais – sem a formalização
civil das uniões – o aumento do número de divorciados é ainda maior. Do
Censo anterior para este, houve um acréscimo de 20% no porcentual de
pessoas envolvidas em dissoluções conjugais, passando de 11,9% para
14,6% em 2010. “Nos dias atuais, a união entre as pessoas ocorre de
forma mais frequente a partir de escolhas afetivas”, ressalta o estudo.
Daí, a liberdade em deixar um relacionamento infeliz.
“A legislação facilitou muito o divórcio. Talvez houvesse antes muito
casamento mantido pelos filhos. Hoje em dia, com a efetiva participação
paterna, ficou mais fácil para o casal se separar, porque o pai e a mãe
continuam a ter o contato com o filho”, diz o advogado Sérgio Arthur
Calmon, especializado em direito de família.
O que a legislação estabelecia como condição para dissolução dos
casamentos era um misto de satisfação perante a sociedade e desvio das
condutas aceitáveis para um casal – mais do que a vontade de um ou ambos
de não mais conviver como casal. Para se separar, era preciso, até
antes da mudança na legislação ocorrida em 2010, imputar alguma conduta
desonrosa ao outro. Algo como ter um amante, negligenciar o lar ou os
filhos. “Há uma mudança grande tanto judicialmente quanto nas relações.
Em um mês é possível se divorciar. Se antes era complicado, agora é esse
processo é tão rápido que torna mais descartáveis as uniões formais”,
afirma Calmon.
O casamento formal – seja no civil ou no religioso – é uma decisão
econômica. E o Censo mostra como o índice de relações formais cresce à
medida que se eleva a renda do extrato estudado: 48,9% das pessoas que
ganham até meio salário mínimo vivem em união conjugal consensual,
enquanto 64,2% do grupo que ganha mais de cinco salários prefere se
casar no civil e no religioso.
Rio, capital das separações - O crescimento no índice
de pessoas que já viveram em união conjugal e não viviam mais na época
da pesquisa é generalizado em todas as regiões do país. De 2000 para
2010, o índice de pessoas que terminaram uma união conjugal subiu de
15,6% para 17,5% - o maior porcentual do país, cuja média geral é de
14,6%. Mas os maiores crescimentos porcentuais foram observados em
Rondônia (33%) e no Mato Grosso (31%), onde ainda se mantêm uma tradição
maior no que diz respeito ao casamento tradicional. “Uma das
explicações possíveis desse crescimento, principalmente na Região Norte
do país é a maior autonomia que as mulheres vêm conquistando, para
colocar um fim em um relacionamento ruim, por exemplo”, explica o
pesquisador Leonardo Queiroz Athias.
Entre os estados, o Rio de Janeiro é o que aparece como o campeão das
separações. Cosme Corrêa e Carla Lage moram juntos em Niterói há três
anos. Antes disso, cada um foi casado com outra pessoa e tiveram filhos.
Hoje, engrossam as estatísticas do IBGE sobre famílias reconstituídas.
Carla chegou com um filho de 10 anos. Cosme com uma menina de cinco. Os
dois têm guarda compartilhada, com alternância de dias. Nas segundas e
quartas, as duas crianças estão na casa deles. O fim de semana é
intercalado. “Há o fim de semana de sucrilhos e iogurte, com as
crianças, e outro de queijos e vinhos. Temos o nosso tempo e o tempo das
crianças”, diz Corrêa, que foi casado outras duas vezes. Hoje, as duas
crianças, de relacionamentos passados de Carla e Correia, se tratam como
irmãos. A família planeja uma viagem para a Disney no ano que vem. Os
pais programam o casamento no papel.
Recomeço – O psicólogo Fernando dos Santos Baltazar,
de 39 anos, compõe esse novo conjunto de famílias.. Ele se casou aos 20
anos com a primeira mulher, com quem teve três filhos. Depois de quase
dez anos de relacionamento “e algumas experiências traumáticas”, veio a
separação. Baltazar se manteve em São Paulo, ela se mudou com os filhos
para Minas Gerais. Baltazar entrou na Justiça – e ainda briga – para ter
o direito de visitá-los.
Dois anos depois do primeiro casamento, veio o momento de recomeçar.
Baltazar se casou de novo, com Luíza, que trazia na bagagem também uma
união conjugal desfeita, além de dois filhos, hoje com 20 e 18 anos.
“Sempre fiz questão de exercer meu papel de pai. Ajudei a cuidar dos
meus três filhos. Com enteados, a relação precisa ser um pouco
diferente. Situações que você poderia resolver com uma chamada de
atenção mais forte têm de ser tratadas de forma diferente”, recorda.
Baltazar e a atual esposa engrossam o índice de pessoas divorciadas que
estão novamente em uma união conjugal: eles são 6,1% do total dos
brasileiros, o único grupo que registrou aumento (de 1,6 ponto
porcentual) do Censo de 2000 para 2010. “Isso reforça o aumento das
uniões reconstituídas no país e da disposição das pessoas em iniciar
novas relações”, enfatiza o pesquisador do IBGE Leonardo Queiroz Athias
(tem aspas melhores dele? “é mais um indicativo” é vago). Nesse mesmo
período, o tipo de união que mais cresceu foi a consensual –
oficializada ou não em cartório –, de 28,6% para 34,8%. Na análise do
IBGE, esta é a confirmação de uma mudança de valores culturais em todo o
país, pois torna as uniões não formalizadas mais aceitas pela
sociedade.
fonte: revista veja
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