Lecticia Maggi
Área de saúde deve apresentar crescimento de oportunidades nos próximos anos
(Thinkstock)
Na semana passada, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)
divulgou estudo apontando as carreiras universitárias e técnicas que registraram maior expansão no Brasil
entre 2009 e 2012. Ficou a dúvida: quais terão o melhor desempenho no
futuro? A pedido de VEJA.com, um time de especialistas em mercado de
trabalho da Universidade de São Paulo (USP), Fundação Getúlio Vargas
(FGV), Ipea e de empresas de recrutamento e seleção respondeu à questão.
Para eles, as profissões mais promissoras para os próximos dez anos
fazem parte de quatro grandes áreas da economia que apresentam boas
perspectivas de crescimento. São elas: saúde, educação, tecnologia da
informação e comunicação (TIC) e engenharia.
Quatro áreas profissionais mais promissoras
Saúde
Especialistas são unânimes em afirmar que as carreiras da área da saúde
devem registrar aumento significativo do número de vagas nos próximos
anos. A principal razão disso é a melhoria do padrão de vida da parcela
mais pobre da população brasileira, que agora deve investir mais em
produtos e serviços ligados ao bem-estar.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), a expectativa de vida do brasileiro atingiu 74,08 anos em 2011,
aumento de quase quatro anos em relação a 2000. A mortalidade infantil,
por sua vez, foi reduzida: passou de 19,4 óbitos para cada 1.000
nascidos vivos para 16,1.
Somam-se a esses fatores a redução da pobreza. Estudo da Fundação
Getúlio Vargas (FGV) de 2012 aponta que, entre 2003 e 2011, cerca de 40
milhões de pessoas ascenderam socialmente. Isso fez com que o
contingente da classe C — formada por famílias com rendimento entre
1.734 e 7.475 reais — saltasse de 65,9 milhões para 105,5 milhões de
pessoas. A tendência deve se manter até 2014, e a previsão é que esse
grupo reúna 118 milhões de brasileiros até lá.
Com mais dinheiro no bolso, essas pessoas devem gastar mais com a
saúde. Isso é perceptível, por exemplo, no crescimento de 50%, entre
2003 e 2012, no número de beneficiários em planos privados de
assistência médica, conforme dados da Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS).
Palavra dos especialistas:
"O setor de serviços, que inclui a área de saúde, se destacou nos últimos anos, em especial depois da crise de 2008. Isso fica evidente por dados preliminares do PIB brasileiro: enquanto a indústria avançou apenas 1,4% ao ano entre 2009 e 2012, os serviços cresceram 3% ao ano no mesmo período. E tudo indica que o setor vai continuar aquecido."
Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultoria
"O setor de serviços, que inclui a área de saúde, se destacou nos últimos anos, em especial depois da crise de 2008. Isso fica evidente por dados preliminares do PIB brasileiro: enquanto a indústria avançou apenas 1,4% ao ano entre 2009 e 2012, os serviços cresceram 3% ao ano no mesmo período. E tudo indica que o setor vai continuar aquecido."
Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultoria
"Além da carência de profissionais em regiões periféricas, há déficit
de especialistas com formação na área de saúde e também habilidade para a
gestão de empreendimentos. De janeiro a junho deste ano, tivemos um
crescimento de 20% na demanda por gestores de saúde frente ao mesmo
período de 2012."
Raphael Revert, gerente da área de saúde da Michael Page, empresa global de seleção e recrutamento
Raphael Revert, gerente da área de saúde da Michael Page, empresa global de seleção e recrutamento
Profissões em alta:
Médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem, técnicos em próteses, imobilizações ortopédicas, odontologia, óptica e estética, entre outras.
Médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem, técnicos em próteses, imobilizações ortopédicas, odontologia, óptica e estética, entre outras.
Educação
A área de educação é outra que tem potencial para um crescimento
expressivo na próxima década. Como ocorre na área de saúde, déficts
passados combinados a maior investimento das famílias devem impulsionar o
setor.
A taxa de atendimento escolar à população de 4 a 17 anos aumentou no
passado recente, passando de 83,8%, em 2000, para 92%, em 2011. No
entanto, o Brasil ainda possui um contingente de mais de três milhões de
crianças e adolescentes fora da escola (dados da Pnad 2011).
Incluí-los é o primeiro desafio. Para isso, além de políticas
educacionais consistentes, o país vai precisar, é claro, de professores.
Os ensinos técnico e superior também devem impulsionar a área. O Censo
da Educação Superior 2011, o último disponível, mostra que entre jovens
de 18 a 24 anos apenas 17,8% já concluíram o ensino superior ou estão
matriculados em algum curso de graduação. Há, portanto, uma lacuna
educacional gigantesca a ser preenchida.
Com a ascensão da classe C — eram 65,9 milhões pessoas, em 2003, e
passaram para 105,5 milhões, em 2011, segundo estudo da Fundação Getúlio
Vargas (FGV) —, especialistas acreditam que a população vai investir
mais na própria qualificação. Na lista dos cursos com provável
crescimento, além de técnicos e de ensino superior, entram
profissionalizantes, de especialização, informática e idiomas. Haverá
necessidade também de supervisores, diretores e gestores de educação.
Palavra dos especialistas:
"O Brasil tem dificuldade de alavancar a qualidade da educação básica (níveis infantil, fundamental e médio) e precisa de mais e melhores professores. O problema, obviamente, vai ser como atraí-los para a carreira docente com um salário de 1.500 reais por mês. Ainda que a relação entre remuneração e qualidade do ensino não seja totalmente direta, o salário atual parece inviável. É preciso discutir a fundo essa questão."
Eduardo Zylberstajn, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
"O Brasil tem dificuldade de alavancar a qualidade da educação básica (níveis infantil, fundamental e médio) e precisa de mais e melhores professores. O problema, obviamente, vai ser como atraí-los para a carreira docente com um salário de 1.500 reais por mês. Ainda que a relação entre remuneração e qualidade do ensino não seja totalmente direta, o salário atual parece inviável. É preciso discutir a fundo essa questão."
Eduardo Zylberstajn, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
"As instituições de ensino privadas têm o desafio de melhorar a
qualidade de sua gestão. Em geral, os cargos gerenciais nessas
organizações são ocupados por profissionais com grande conhecimento
acadêmico. Há, no entanto, a necessidade de pessoas com experiência na
gestão de produtos e com conhecimento de negócios. Pela falta de
profissionais adequados, algumas instituições estão apelando para a
contratação de especialistas na área de serviços ao consumidor
(telecomunicação, energia e saúde)."
Fernando Andraus, diretor da Page Executive, empresa global de seleção e recrutamento
Fernando Andraus, diretor da Page Executive, empresa global de seleção e recrutamento
Profissões em alta:
Professores de todos os níveis educacionais (educação infantil, fundamental, média e superior), diretores e gestores.
Professores de todos os níveis educacionais (educação infantil, fundamental, média e superior), diretores e gestores.
Tecnologia da informação e comunicação (TIC)
A área de tecnologia da informação e comunicação (TIC) é talvez a maior
aposta de economistas e consultores para a próxima década. Na avaliação
deles, o setor deve crescer, com abertura de vagas, não importa muito
qual seja o desempenho da economia nos próximos anos. Isso porque todos
os setores da economia apresentam uma grande demanda pelos serviços da
área e, portanto, por seus profissionais.
Em razão da informatização de seus sistemas, as organizações estão cada
vez mais dependentes de desenvolvedores de software, analistas de
segurança de redes e sistemas de informação. Acrescente-se a isso o fato
de que não há trabalhadores capacitados em número suficiente.
Em março deste ano, a consultoria IDC divulgou o estudo Networking Skills Latin America,
que estima que, em 2015, a procura por profissionais de TIC no Brasil
excederá a oferta em pouco mais de 30%. A projeção é de uma lacuna de
117.200 trabalhadores especializados em redes e conectividade.
A Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e
Comunicação (Brasscom) também realizou uma estimativa a partir do
cruzamento de dados dos ministérios do Trabalho e da Educação. Foram
avaliados sete estados (Bahia, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de
Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo) e também o Distrito Federal. O
resultado: em 2014, para atender à demanda prevista, São Paulo precisará
do triplo de profissionais de TIC.
Palavra dos especialistas:
"A atividade dos profissionais de TIC passou a integrar as demais áreas da economia. Contudo, o Brasil ainda está atrasado na formação desses profissionais, o que gera escassez de talentos. É preciso melhorar a formação deles já que a perspectiva é que o mercado continue muito 'comprador'."
José Pastore, professor da faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP)
Palavra dos especialistas:
"A atividade dos profissionais de TIC passou a integrar as demais áreas da economia. Contudo, o Brasil ainda está atrasado na formação desses profissionais, o que gera escassez de talentos. É preciso melhorar a formação deles já que a perspectiva é que o mercado continue muito 'comprador'."
José Pastore, professor da faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP)
"Há dois campos em TIC que merecem destaque: aplicações para
smartphones e computação em nuvem. Nessas, os salários dos melhores
especialistas chega a 12.000 reais."
Diego Rondon, gerente de TIC da Page Personnel, empresa de seleção e recrutamento
Diego Rondon, gerente de TIC da Page Personnel, empresa de seleção e recrutamento
"Terá destaque no mercado o profissional que aliar conhecimentos de
tecnologia e de negócios e que, ao mesmo tempo, seja capaz de demonstrar
às empresas as vantagens da implementação de determinado programa."
Juliano Ballarotti, diretor da Hays, empresa de seleção e recrutamento
Juliano Ballarotti, diretor da Hays, empresa de seleção e recrutamento
Profissões em alta:
Especialistas no desenvolvimento de aplicativos para dispositivos móveis, computação em nuvem e qualidade de software, analistas de tecnologia da informação e sistemas, desenvolvedores de software e programadores, entre outros.
Especialistas no desenvolvimento de aplicativos para dispositivos móveis, computação em nuvem e qualidade de software, analistas de tecnologia da informação e sistemas, desenvolvedores de software e programadores, entre outros.
Engenharia
Entre as áreas profissionais apontadas por especialistas como as mais
promissoras para os próximos anos, a de engenharia é que está mais
atrelada ao desempenho econômico do país. Isso quer dizer que um baixo
crescimento — com diminuição de investimentos em infraestrutura — terá
impacto maior na criação de vagas neste setor.
Ainda assim, os prognósticos são animadores, principalmente para os
profissionais das engenharias química, elétrica e de petróleo. A razão
do otimismo são os futuros investimentos do país na exploração de
petróleo e gás: no último dia 9, foi publicada a prévia do primeiro
edital de licitação para exploração de petróleo na camada pré-sal,
referente a área de Libra, na Bacia de Santos.
Não vão faltar vagas também aos especialistas em engenharia de energia, principalmente aos que atuarem na busca de fontes renováveis, e engenharia de segurança do trabalho. "As empresas estão mais preocupadas com a segurança de seus funcionários, pois, além de diminuir o risco de eventuais processos trabalhistas, passam ao mercado uma imagem positiva, de que têm responsabilidade", afirma Paulo Dias, gerente da divisão de Engenharia da Page Personnel, empresa de seleção e recrutamento.
Vale destaque ainda a área de engenharia de operações, onde projeta-se uma expansão maior do número de vagas no médio prazo — daqui a cerca de cinco anos. Isso porque, com parte das obras de infraestrutura no país concluídas, espera-se a ampliação de postos de trabalho ligados ao setor de logística das empresas.
A área de engenharia civil — sétimo lugar na lista do Ipea das dez carreiras de nível superior que registraram maior expansão de vagas entre 2009 e 2012 — também apresenta alto potencial de crescimento. Apenas para zerar o déficit habitacional do país, por exemplo, seriam necessárias 5,4 milhões de habitações, segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Economia Aplicada (Ipea). No entanto, vale lembrar: entre as engenharias, esta é a mais sensível às oscilações econômicas.
Não vão faltar vagas também aos especialistas em engenharia de energia, principalmente aos que atuarem na busca de fontes renováveis, e engenharia de segurança do trabalho. "As empresas estão mais preocupadas com a segurança de seus funcionários, pois, além de diminuir o risco de eventuais processos trabalhistas, passam ao mercado uma imagem positiva, de que têm responsabilidade", afirma Paulo Dias, gerente da divisão de Engenharia da Page Personnel, empresa de seleção e recrutamento.
Vale destaque ainda a área de engenharia de operações, onde projeta-se uma expansão maior do número de vagas no médio prazo — daqui a cerca de cinco anos. Isso porque, com parte das obras de infraestrutura no país concluídas, espera-se a ampliação de postos de trabalho ligados ao setor de logística das empresas.
A área de engenharia civil — sétimo lugar na lista do Ipea das dez carreiras de nível superior que registraram maior expansão de vagas entre 2009 e 2012 — também apresenta alto potencial de crescimento. Apenas para zerar o déficit habitacional do país, por exemplo, seriam necessárias 5,4 milhões de habitações, segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Economia Aplicada (Ipea). No entanto, vale lembrar: entre as engenharias, esta é a mais sensível às oscilações econômicas.
Palavra dos especialistas:
"Na década passada, a economia puxou a demanda por engenheiros civis e milhares foram contratados, com altos salários. No entanto, como a economia não está tão aquecida, é possível que a profissão não avance muito. Mas engenharia, em geral, é sempre uma ótima escolha: por conhecer a fundo a área de exatas, o profissional pode competir também por vagas com administradores e economistas e, não raro, levará vantagem. Ele não fica desemprego."
Paulo Meyer, pesquisador do Ipea e um dos responsáveis pela publicação do Radar 27, estudo que mapeia as ocupações de nível técnico e superior com maior expansão de vagas no Brasil.
"Na década passada, a economia puxou a demanda por engenheiros civis e milhares foram contratados, com altos salários. No entanto, como a economia não está tão aquecida, é possível que a profissão não avance muito. Mas engenharia, em geral, é sempre uma ótima escolha: por conhecer a fundo a área de exatas, o profissional pode competir também por vagas com administradores e economistas e, não raro, levará vantagem. Ele não fica desemprego."
Paulo Meyer, pesquisador do Ipea e um dos responsáveis pela publicação do Radar 27, estudo que mapeia as ocupações de nível técnico e superior com maior expansão de vagas no Brasil.
"Serão muito demandados engenheiros químicos, elétricos e de petróleo
para ajudar no desenvolvimento de modelos de exploração de óleo e gás no
país. Outra área em que projetamos crescimento é a de engenharia de
operações. Hoje, com poucos portos e reduzida malha ferroviária e
hidroviária, a atuação deste profissional é difícil. Mas, em cerca de
cinco anos, com a melhoria que prevemos em infraestrutura, a atuação
deles será valorizadíssima."
Juliano Ballarotti, diretor da Hays, empresa global de seleção e recrutamento.
Juliano Ballarotti, diretor da Hays, empresa global de seleção e recrutamento.
Profissões em alta:
Engenheiros elétrico, químico, de petróleo e de operações, além de engenheiros especialistas em segurança no trabalho.
Engenheiros elétrico, químico, de petróleo e de operações, além de engenheiros especialistas em segurança no trabalho.
A criação de vagas nessas áreas será, é claro, influenciada pelo
desempenho da economia — cujo ritmo, aliás, está longe do desejado. "A
taxa de desemprego nacional, que foi de 5,5% em 2012, pode chegar aos 6%
em 2013. As perspectivas de emprego para 2013-14, portanto, não são tão
boas como no passado recente", afirma José Pastore, professor da
Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP.
Ainda assim, para as quatro áreas citadas, o prognóstico é positivo. Na
contramão da indústria, o setor de serviços — no qual estão inseridas
saúde e educação — apresenta boas perspectivas e está menos exposto a
oscilações econômicas. "A área industrial é muito vulnerável à demanda
externa: cerca de 20% de tudo o que produzimos é destinado ao exterior",
diz Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultoria.
A FGV têm números a respeito das perspectivas a curto prazo, colhidos
entre as empresas dos setores de indústria e de serviços. Enquanto o
Índice de Confiança de Serviços (ICS) estabilizou em 119,4 pontos em
junho, o congênere da indústria (ICI) caiu, atingindo 103,8 pontos
(valores superiores a 100 expressam otimismo). "Há uma demanda forte por
serviços de saúde e educação, mesmo quando o cenário econômico não é
favorável", afirma Paulo Meyer, pesquisador do Ipea.
Educação e saúde devem colher ainda frutos da ascensão da chamada
classe C — que, na definição da FGV, é formada por famílias com renda
entre 1.734 e 7.475 reais. Estudo da instituição mostra que 40 milhões
de pessoas entraram nesse grupo entre 2003 e 2011, fazendo-o saltar de
65,9 milhões para 105,5 milhões de brasileiros. "É mais gente, com mais
dinheiro. E essas pessoas certamente demandarão serviços de saúde e
educação. Exemplo disso são os jovens que buscam qualificação técnica ou
universitária, embora seus pais possuam pouca ou nenhuma formação
acadêmica", diz Eduardo Zylberstajn, professor da FGV.
Tecnologia da informação e comunicação (TIC) e engenharia têm outras
razões para colher bons resultados nos próximos anos. No primeiro caso,
especialistas apontam a crescente demanda por tecnologia em todos os
setores da economia — de indústrias a hospitais, de escolas ao comércio.
No caso de engenharia, o impulso deve vir de investimentos em setores
como o petrolífero e logística.
fonte: revista veja
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