Nesta quarta-feira, descobriu-se que Renan, valendo-se das
prerrogativas de presidente do Senado, requisitou um jatinho da
Aeronáutica para comparecer ao casamento da filha de Eduardo Braga,
líder do governo na Casa do Espanto. Embora represente o Amazonas e more
em Manaus, Braga decidiu que a noiva Brenda merecia uma festança na
praia de Trancoso, no litoral baiano.
No dia 15 de junho, o cliente VIP da FABTur decolou de Maceió no fim
da tarde, pousou em Porto Seguro menos de uma hora depois, foi de carro
oficial para Trancoso, comeu do bom e do melhor, bebeu sem medo de leis
secas, voltou para o aeroporto no carro chapa-branca, embarcou na
madrugada rumo a Brasília, desfrutou do sono dos sem-remorso e acordou
achando que a vida vale a pena. Principalmente para portadores de
salvo-conduto para delinquir.
“Dois casos de polícia vão chefiar o Carandiru sem grades”, informou o
título do texto aqui publicado em 16 de janeiro, quando ficou
assegurada a eleição de Renan e de Henrique Alves. A farra aérea que
acaba de devolver a dupla ao noticiário exige a reprise do post:
“Em nações politicamente adultas, Renan Calheiros e Henrique
Alves não passariam da primeira anotação no prontuário: antes da segunda
patifaria, seriam transferidos da tribuna para um tribunal, teriam o
mandato cassado e só voltariam ao Congresso para depor em alguma CPI ou,
depois da temporada no presídio, fantasiados de turistas. Num Brasil
com cara de clube dos cafajestes, o senador alagoano vai presidir a Casa
do Espanto e o deputado potiguar vai administrar o Feirão da
Bandidagem. Faz sentido.
A seita lulopetista aprendeu que folha corrida é currículo,
integridade é defeito e honra é coisa de otário. Como nas disputas
promovidas mensalmente pela coluna para a escolha do Homem sem Visão do
Ano, a eleição do presidente da Câmara ou do Senado comprova que os
congressistas votam no candidato que lhes pareça o pior entre os piores.
A galeria dos eleitos depois do advento da Era da Mediocridade confirma
que, quanto mais alentado for o prontuário, maior será a chance de
vitória.
Indicados pelo PMDB, com o endosso de partidos da base alugada e o
apoio da oposição oficial, Renan e Henrique Alves estão à altura dos
atuais ocupantes do cargo. José Sarney só não foi despejado da
presidência do Senado porque Lula o promoveu a Homem Incomum e os
oposicionistas estão em férias há 10 anos (veja o post reproduzido na seção Vale Reprise).
Renan teve de renunciar ao posto para escapar da cassação que até seus
comparsas achavam inevitável. Marco Maia acha muito natural que um
deputado condenado pelo STF passe o dia no plenário e a noite na cadeia.
Henrique Alves já avisou que, se José Genoíno precisar de um coiteiro, é
só chamar o presidente.
Contemplada do lado de fora, a sede do Parlamento brasileiro é
uma bela criação da grife Niemeyer. Visto por dentro, sobretudo por quem
conhece a face escura dos inquilinos, o lugar onde deveria haver um
Congresso é reduzido a um acampamento de meliantes com um terno escuro
que não se dá com a gravata, sorriso de aeromoça e a expressão confiante
de quem confunde imunidade parlamentar com licença para pecar.
O Congresso virou um Carandiru sem grades. É natural que seja dirigido por casos de polícia.
fonte: revista veja
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